deste modo, - dizia Aurius - ela fica visível para mim e, ao mesmo tempo, para todos, e se assim o vento ou qualquer outra força o quiserem, ela pode rolar da mão para o mundo, cumprindo, então, o destino da sua forma.
gonçalo m. tavares, histórias falsas
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domingo, 2 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
tempo.
o Senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos. ...
-Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.” ...
Gonçalo M. Tavares
-Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.” ...
Gonçalo M. Tavares
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
limão.
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.
Miguel Sousa Tavares
arrepiar o coração.
peregrinos de si mesmos, voltam inevitavelmente ao mesmo lugar.
Fotografia: Fernando Dinis MusicPhotography para a TransVerso
criar condições para um encostar perfeito no sofá.
Ser cidade complica a vida de qualquer menina com ares de importância. Cumplicidades que nos medem riscos e vielas, becos e encruzilhadas. Nunca nos deixam em paz, por mais noite que seja. Abandonam-nos aos automóveis, às torres e às urbanizações. Abrem-nos o cérebro com imitações de casas de bonecas que sabemos estarem prenhes de boas intenções acriançadas. Haviam de nos ensinar à nascença a praticar a claridade por vias sinuosas. Um qualquer lugar em que se ensinasse a acolher tantas almas perdidas e encontradas. Dentro dele apenas impetuosidade e omnipresença de corpo e espírito. No dia em que me cobrirem o corpo com o manto verde que tanto desejo, abrirei os braços ao mundo. Aportarei navios cheios de raças e bocas sedentas de sardinhas e vinho. Á vista desarmada, prossigo na espera. Como sempre Ulisses, desde que me sentiu aqui aninhada junto ao mar. Olissipo. Cidade da perdição sentida. Abrigo tantos e não há quem me adormeça a pele. Sigo cantada por recantos escuros e falada pelas esquinas de cheiro acre. Esqueceram-se de me fechar ao sair. Sigo escancarada na luz que me ressalta dos olhos ao acordar.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
do saber.
You're not to be so blind with patriotism that you can't face reality. Wrong is wrong, no matter who does it or says it.
- Malcolm X
TransVerso
TransVerso
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
porque não se deve contrariar ídolos. parte 5.
The State never intentionally confronts a
man’s sense, intellectual or moral, but only his body, his senses. It is
not armed with superior wit or honesty, but with superior physical
strength. I was not born to be forced. I will breathe after my own
fashion. Let us see who is the strongest.
- Henry David Thoreau, On Civil Disobedience
- Henry David Thoreau, On Civil Disobedience
domingo, 18 de novembro de 2012
café na fábrica.
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Swádhyáya
Local:
Lisboa, Portugal
jardim das amoreiras.
é uma tentação atribuir aos
outros o poder de tirarem o melhor ou o pior de nós, como se fossemos um
instrumento musical nas mãos de um músico, que tanto pode revelar o
talento para extrair a nossa mais harmoniosa melodia, como apenas obter
notas desafinadas e ruidosas.
os outros justificam o facto de sermos simultaneamente um Stradivarius e um violino de plástico.
os outros justificam o facto de sermos simultaneamente um Stradivarius e um violino de plástico.
foto: o.a.
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sábado, 17 de novembro de 2012
home*
o
melhor de uma verdade é o que dela nunca se chega a saber...evitarás
assim o ridículo de chorar a perda de um alfinete numa casa que te
ardeu.
vergílio ferreira
vergílio ferreira
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
porque não se deve contrariar ídolos. parte 4.
Vale a pena atravessar meio mundo para ir procurar o outro, mesmo que seja para perceber que o outro não está lá porque atravessou meio mundo para nos vir procurar aqui.
josé luís peixoto, n'A Visão
josé luís peixoto, n'A Visão
foto: genoveva abreu
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
roupagens.
Meus amigos, amo-vos mais de Inverno do que no Verão;
zombo agora melhor e mais animosamente dos meus inimigos, desde que tenho o Inverno em casa. (...) Arrastar-me? Eu?
Nunca na minha vida me arrastei ante os poderosos. E se alguma vez menti, foi por amor.
Por isso fico satisfeito até na minha cama de Inverno. Um leito humilde aquece-me mais do que um leito faustoso, porque eu sou zeloso da minha pobreza. E é no inverno que ela me é fiel.
Nietzsche, Assim falava Zaratustra
Fotografia: Fernando Dinis Music/Photography
para a TransVerso
terça-feira, 13 de novembro de 2012
porque não se deve contrariar ídolos. parte 2.
Não se pode pensar em
virtude sem se pensar num estado e num impulso contrários aos de virtude
e num persistente esforço da vontade. Para me desenhar um homem
virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele é voluntário; tenho
de, talvez em esquema exagerado, lhe pôr acima de tudo o que é modelar e
conter. Pela origem e pelo significado não posso deixar de a ligar às
fortes resoluções e à coragem civil. E um contínuo querer e uma contínua
vigilância, uma batalha perpétua dada aos elementos que, entendendo,
classifiquei como maus; requer as nítidas visões e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal, numa falta de coragem para o praticar; e, na verdade, não posso ter grande respeito pelas amibas que se sobrevivem.Só os sacristães são levados, por índole e ofício, a venerar todos os santos, sem pôr em mais alto lugar os que encheram sua vida de esquinas e no dobrar de cada uma sofreram agonias e suaram de angústia; mas, para nós, foram mais longe os que mais se feriram nos espinhos de uma remissa natureza; se a venceram merecem estar no céu; se não venceram, o próprio esforço lho devia merecer; no entanto já o inferno é uma forma de glória; para os outros seria bom que se criasse um novo recinto de imortalidade: e só o vejo estabelecido no lodo espapaçado de um fundo tranquilo, sem pregas de correntes nem restos de naufrágios; exactamente um cemitério de medusas.
Para o que é bom por ter nascido bom e a única virtude consistiria em ser mau; aqui se mostrariam originalidade e coragem, mérito, portanto; porque ser mau por ter nascido mau só lhe deveria dar, como aos do lado contrário, o direito ao eterno silêncio. Por aqui se compreende que as vidas dos Sorel tenham sempre ressonância nas almas Stendhal; e também a sensibilidade, a delicadeza, todo o fundo de boas qualidades de certos grandes criminosos. Sei bem os perigos que tal doutrina pode ter transportada ao social e sei também a maneira de pôr de lado a objecção, alargando o conceito de virtude, dando-o como o desejo de superar e não como o desejo de combater; mas de propósito fiquei no que a virtude tem de luta entre a natureza e a vontade.
Agostinho da Silva, Considerações
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal, numa falta de coragem para o praticar; e, na verdade, não posso ter grande respeito pelas amibas que se sobrevivem.Só os sacristães são levados, por índole e ofício, a venerar todos os santos, sem pôr em mais alto lugar os que encheram sua vida de esquinas e no dobrar de cada uma sofreram agonias e suaram de angústia; mas, para nós, foram mais longe os que mais se feriram nos espinhos de uma remissa natureza; se a venceram merecem estar no céu; se não venceram, o próprio esforço lho devia merecer; no entanto já o inferno é uma forma de glória; para os outros seria bom que se criasse um novo recinto de imortalidade: e só o vejo estabelecido no lodo espapaçado de um fundo tranquilo, sem pregas de correntes nem restos de naufrágios; exactamente um cemitério de medusas.
Para o que é bom por ter nascido bom e a única virtude consistiria em ser mau; aqui se mostrariam originalidade e coragem, mérito, portanto; porque ser mau por ter nascido mau só lhe deveria dar, como aos do lado contrário, o direito ao eterno silêncio. Por aqui se compreende que as vidas dos Sorel tenham sempre ressonância nas almas Stendhal; e também a sensibilidade, a delicadeza, todo o fundo de boas qualidades de certos grandes criminosos. Sei bem os perigos que tal doutrina pode ter transportada ao social e sei também a maneira de pôr de lado a objecção, alargando o conceito de virtude, dando-o como o desejo de superar e não como o desejo de combater; mas de propósito fiquei no que a virtude tem de luta entre a natureza e a vontade.
Agostinho da Silva, Considerações
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
porque não se deve contrariar ídolos. parte 1.
Se se diz a uma mulher que certo homem é inteligente, ela escreve mentalmente um zero. Se se diz que é culto, ela escreve outro zero. Se acrescentarmos que é belo, amável, com boa reputação social e tudo o mais que se quiser, ela acrescenta outros zeros. Se finalmente se confidenciar que ele é bom na cama, ela escreve um 1 antes dos zeros todos.
(Tenho ideia de ter lido qualquer coisa de semelhante a esta conta não sei onde. Mas como não sei onde, façamos de conta que a conta é minha. Porque de qualquer modo, é exacta.)
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 2
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
corpos estranhos
vezes houve em que se dava em mim
a fulguração de um talvez:
já sabes - são invisíveis os poemas
Fotografia: Fernando Dinis Music/Photography
para a TransVerso
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
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