sábado, 19 de maio de 2012

a incompleta noção de te tocar os dedos.

Marilyn Monroe, photo by Philippe Halsman, 1952

e de dentro do livro largaram aves, milhares de palavras aladas que pairam sobre o Estreito e se confundem nas migrações da sua espécie.
algumas regressam a Sul com vocábulos luminosos, outras ficam reféns das frias pronuncias do Norte.
no meio, porque há sempre um meio, a página empalidece de ausência, onde só a presença dessa ausência ainda é legível.

jorge fallorca, a cicatriz do ar

grande merda para a saudade


quem nos disse que ela era muito bonita, estava atrás do espelho e enganou-se.
mal sabe ela o que lhe vou fazer quando a arrancar dos ossos, em doses pequeninas de calçada portuguesa debaixo dos pés. bem pisadinha, que é para aprender a ficar sossegadinha e calada, como manda o decorrer das dores de crescimento que não há meio de passarem.


sempre que o pai me liga

apetece-me largar tudo e desitir.
mas depois penso na teimosia que me deixou de herança e fico.

3. ou criaste um monstro.

ou, o frankenstein de três pés e quatro-folhas.


ouvir bill callahan antes das 10h da manhã, é sol que nos entra pela janela à bruta* :)

reconhecer a derrota

- e o que é que vais fazer hoje?
- ler o jornal até me apetecer. comer bolo de canela à hora de almoço sabendo que nunca me vai parecer mal nem serei repreendida nem vou pensar no que cozinhar ou lavar ou deitar fora. chatear a vizinha com o vinil no máximo.
- então mas podias fazer tudo isso na mesma enquanto eu te beijava. já pensaste? 
podes trincar o bolo de canela, e eu viro o vinil antes do silêncio. e aposto que consegues ler o jornal de olhos fechados também.
- pois consigo. já o vinil... ok. anda lá.

isto tudo a propósito do festival de cannes


e do livro que encontrei noutra caixa.
e do filme sobre renoir, finalmente. a musa. ela inacabada.
aparece-nos andrée heuschling, a miúda de 16 anos que devolve ao pintor, em fim de vida e incapaz de criar, a força de outrora, chegando por ela a mulher loira com rosas e as banhistas.
quando o mestre morre, andrée casa-se com o seu filho, que viria a ser um dos maiores realizadores de cinema de sempre. e

porque não é todos os dias que se passa de uma tela para a outra. porque andrée viveu e deu a viver.
porque o que mais importa não é o que se fica, mas o que se deu.

chegou de b. a lembrar.

Then the Lord rained upon Sodom and upon Gomorrah brimstone and fire from the Lord out of Heaven (...) those were vile people in both those cities, as is well known. The world was better off without them. And Lot's wife, of course, was told not to look back where all those people and their homes had been. But she did look back, and I love her for that, because it was so human. 


Kurt Vonnegut

é óbvio que até o episódio terminar, ele escolhe a outra.

jack: A smug, 40-year-old bridesmaid. What a treat for everyone. Yes, Lemon, I am with Nancy now.liz: What made up your mind?  jack:Well, I decided that any decision was better than no decision at all.  liz:Huh, I don't know, Jack. I used to feel that way too. But now, I know you can't force your fate. You just have to let it wash over you. Like a spray tan that won't take because your skin is too oily. jack:That's absurd, Lemon. The world is made by those who control their own destiny. It isn't made by those who don't do, it's made by those who do doWhich is what made me the man I am. I do do. liz:Yeah. jack:Grow up, Lemon.The point is, I've made my choice, and I'm not looking back, period.  liz:  Period.   30 Rock  

um dia todos vão conseguir perceber de uma vez por todas

que só é possível mudar um homem se ele estiver de fraldas.

a joana inaugurou a casa nova.


mas como se nunca tivesse lá vivido antes.
era a casa para onde se mudara noutra vida.
era a casa que estreara com outro mundo à sua volta. 
e hoje, depois de tantos anos, regressa tão mais ela. tão mais bonita. e tudo o que ali viveu tornou-se uma amálgama de pessoas e gestos que se cumprem e que agora se juntam para lhe mostrar com quantos pontos se cose uma certeza. ainda que distante. tudo acaba por chegar. é preciso é saber esperar.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

mais de bonito. *

blue as your blood.


the walkmen, heaven, 2012

i know a cool place in the desert.


Are you desirable? Are you irresistible? Maybe if you drank bourbon with me, it would help. Maybe if you kissed me and I could taste the sting in your mouth it would help. If you drank bourbon with me naked. If you smelled of bourbon as you fucked me, it would help. It would increase my esteem for you. If you poured bourbon onto your naked body and said to me "drink this". If you spread your legs and you had bourbon dripping from your breasts and your pussy and said "drink here" then I could fall in love with you. Because then I would have a purpose. To clean you up and that, that would prove that I'm worth something. I'd lick you clean so that you could go away and fuck someone else. 


leaving las vegas, mike figgis, 1995

hold it for a second.

ninety percent of us end up with the wrong person, and that's what makes the jukebox spin.



willie nelson

quinta-feira, 17 de maio de 2012

mr. gomez.


 this one has your name on it*

assisto a um documentário com a laurie anderson na 2.

apetece entrar por ali adentro e passar o resto das horas da noite a pensar no que raio fazemos da vida quando não a ouvimos. nem lemos. nem queremos. só para nós. egoístas de um raio.

o neurótico é o homem do futuro.



henry miller

calma é apenas um pouco tarde




A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —


Manuel António Pina, Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde

é essencial.



manter o público interessado. atento.
dar-lhe o que ele quer.
o espectáculo da sua não existência lembra aqueles dias de verão adormecidos numa sombra qualquer à espera da brisa que não chega.
e tu escreves-me de onde pareces viver, com corpo, mas a alma mudou-se para aqui de outros tempos há muito.
e existimos nessa forma transparente que o palco não sente. que as luzes não preenchem.
acordados.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

neste momento, a sic entrevista os jovens afectados pelo desemprego

na praia de carcavelos.

andar aos poucos. sentar devagar.


foto: sayiuki

Quantas teorias tenho pensado sobre tudo; sobre quantas ciências tenho meditado até chegar a novidades. Antigamente ciência, natureza, interessavam-me por mim pensador e trabalhador-teorista. Poderia ter feito um nome grandemente vazio, e retumbantemente estéril. Veio-me cedo a consciência da futilidade de tudo. Vim para aqui. Continuei a ler, mas não escrevo, nem outra coisa. Destruí o que escrevera e anotara. Pensava, teorizava e sofria. Hoje passei além. O pensamento tornou-se-me a alma. Sentimentalizou-se, dispersou-se por mim, perdendo o seu ser de pensamento e lógica. Hoje já não penso; sinto a reflexão. Penso com o sentimento. Raciocino-me.

Fernando Pessoa, O Mendigo e Outros Contos