segunda-feira, 16 de maio de 2011

corifeu

foto: fabrice pinto

Um relâmpago. Avista-se Diónisos em beleza esmeraldina.

Diónisos:

Sê prudente, Ariadne!...
Tu tens orelhas pequenas, tens as minhas orelhas:
Mete nelas uma palavra prudente! -
Não temos que odiar-nos primeiro, para podermos amar-
[mo-nos?...
Eu sou o teu labirinto...


ditirambos dionisíacos, f. nietzsche


sábado para domingo ainda está dormente.

sobreviveste?

antígona, ou a mulher que enterra o irmão, o pai, a mãe(avó) e sabia fazer rir o mundo



a tragédia transformada em riso.

a noite trazida em lua prateada perdida no alto da muralha.
a verdade dentro de uma morna.

ocorre abrir a volta da tenda que nos deixou ali adormecer. e dançar

isto não é só fabuloso. é obrigatório.


domingo, 15 de maio de 2011

colher flores da berma da estrada.
cortá-las e encher os dedos.

nas mãos vazias.

a noite



não devia acordar-se tão cedo depois de um dia assim.

não devia terminar-se uma noite depois de um dia assim.

sábado, 14 de maio de 2011

desespera

dylan thomas e rimbaud à minha espera.

efeito borboleta


foto: fabrice pinto


nem sempre sono escrito:
quem de mim foge
ora entre as pernas se esconde
ora sabe deus onde.

regina guimarães

brick lane



parecia-nos que o sonho chegara onde as salas persistem sem paredes nem vidros.

envolvendo palavras em búzios e pérolas e enredadas em redes e vidradas em contradições pungentes.

agora, persiste o sabor a sal. caminhando ao lado da pele macia dos lábios que descobrem afinal o caminho mais nosso.

repousa os olhos e o corpo. ressente e cobre de mãos ávidas de viagem em planisférios que caminhaste a doçura do toque na carne que é esta. que sempre se desfaz em água à passagem dos dedos na reentrância da anca. a que desce pela linha do tronco. a que vinca na alma o querer chegar àquela parte incerta das pestanas que cerram no encontro com o vento.
que traz a notícia desse leve mas cumpridor despertar.

assobiando e andando





apetece fazer tudo de novo :)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

ulisses


foto: fabrice pinto

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


sophia de mello breyner

essential killing

só vincent gallo se podia safar num filme onde não articula uma só palavra.
e diz tudo.

de rastos. a chapada não podia ser mais forte.

terça-feira, 10 de maio de 2011

the corpse bride


fotos: fabrice pinto

«She can't hold a candle

To the beauty of your smile

How about a pulse?
Overrated by a mile

- Overvalued - Overblown



If he only knew


The you that we know
»

coming of age


bill: how do i look?

the bride: you look ready.

homme au bain

ou o filme em que ninguém adormeceu :)

o «jovem esqueleto» do poema de baudelaire



matámos outra vez a noite na hora h.
agarrar no orwell é perder as estribeiras.
é trair todas as listas de espera, pilhas amontoadas na mesa-de-cabeceira e votos de contenção sinceros e profundos.
nem em mim mesma confio mais depois disto.

tu levaste o fausto.
está tudo dito.



sábado, 7 de maio de 2011

corpo



que te seja leve o peso das estrelas e de tua boca irrompa a inocência nua dum lírio cujo caule se estende e ramifica para lá dos alicerces da casa abre a janela debruça-te deixa que o mar inunde os órgãos do corpo espalha lume na ponta dos dedos e toca ao de leve aquilo que deve ser preservado mas olho para as mãos e leio o que o vento norte escreveu sobre as dunas levanto-me do fundo de ti humilde lama e num soluço da respiração sei que estou vivo.

sou o centro sísmico do mundo

al berto



Nowadays most people die of a sort of creeping common sense, and discover when it is too late that the only things one never regrets are one's mistakes


Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray, 1891


quinta-feira, 5 de maio de 2011

na distância



aquela que por vezes precisamos e pela qual gritamos quando o ruído é tanto e ensurdecedor que parece encher-nos de borboletas e formigas e mãos que nos puxam e empurram e formam montanhas de palavras às nossas costas.

é também na distância que surgem vontades. amores maiores. certezas que só o silêncio e os quilómetros e os mares e os ventos permitem abrir no peito. aclarar ideias. amenizar bocas ávidas de perguntas. alisar sobrancelhas arqueadas e testas franzidas.

sorrisos que não esquecem e mãos que apertam. muito. e tocam no regresso.
até já. vem devagarinho. cá te espero. no silêncio que não se importa de romper com um riso bem sonoro pelas ruas que ladeiam a nossa casa de chá com cupcakes dentro.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

contra ventos e marés



nada como levar com uma prancha nos queixos para acordar.
há anos que não via o céu daquela cor. as nuvens rosa mar adentro.
o cinzento riscado.
há anos que não saía da praia de noite.
há muitos anos que não tocava numa destas.
até lhes havia esquecido o peso. e a força.
há anos que não ficava sem ar e a remar contra a maré e a tentar subir e a força que não deixa e o mar que puxa e a água que acalma por fim.

obrigada pelo tanto que reencontrei!
e pela força que sempre chega.

e logo hoje

a caminho da praia, encontrámos esta casa abandonada.



parámos o carro.
tinha o teu nome.



hoje.