
«É uma sensação estranha; deixei para amanhã as duas últimas páginas e
meia, a assobiar para o lado. Depois passo os olhos por ela, mando-a só
para receber e, como combinado, vou deixá-la em pousio para a ler sem me
sentir tesicado pelo fantasma “Despacha-te, pá!” Resquícios que me
ficaram da síndroma do “fecho de páginas”. Um gajo bem tenta, bem se
esforça, mas não é de chumbo, a coisa fica em lume brando e salta quando
menos se espera; a imprensa. Meu Deus, há quanto tempo ela não “fornece
um novo dia” (Herberto Helder).
Mas devo confessar que, além da mencionada lágrima no olho, e não o
escrevo “em forma de coração” (Salinger), chegada a hora de devolver o
livro todo massacrado pelas molas que o mantêm aberto e anotado,
sinto-me borradinho de medo. Uma coisa é lê-lo e conversarmos, outra,
bem diferente, é o sentimento de frustração quando se acaba de traduzir
um livro. Por mim falo, sinto-me roubado, privado de uma companhia; como
se o computador tivesse dado o berro e oferecido um ficheiro ao vazio.
Longe vá o agoiro; não me dava jeito nenhum, ver a minha biblioteca de
babel a arder.»
Jorge Fallorca,
sobre o terminar da tradução de
Diário Volúvel, de Enrique Vila-Matas