terça-feira, 8 de março de 2011

inspiras-me

todos os dias.
feliz aniversário, grande salamandra, big sis.

foto: paulo nozolino
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

A. Ramos Rosa, A Mão de Água e a Mão de Fogo


o mergulho




O Homem só será livre quando tiver destruído toda e qualquer espécie de ditadura religioso-política ou político-religiosa e quando for capaz de existir sem limites . Então o Homem será o Poeta e a poesia será o Amor Explosivo.

Para a Pátria, a Igreja e o Estado a nossa última palavra será sempre:

MERDA.


cesariny

poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos, Poema em Linha Reta; Poesias (1944)).

segunda-feira, 7 de março de 2011

acredita

quando um grupo de pessoas se aproxima de um poço com a intenção de saltar, o primeiro a cair tende a sofrer mais do que quem cai depois dele.

4 a.m.




Around every step you fake.
Spiral Staircase goin' down,
Paint your body red and brown


domingo, 6 de março de 2011

optar pela monodieta e comer bolos o dia todo.

para ver se o vestido deixa de servir e temos de o rasgar para sempre.

sempre seria útil, usavam-se os bocados arrancados e faziam-se trapos para limpar o chão.

branco sobre branco. pó ao pó. preto no branco. costuras de fora, arrancadas do cós. atilhos perfeitos.

look at jesus and his hair

acordar


o belo aninha-se no bizarro.

o riso dissonante


possível o recomeço
possível o sobressalto
possível o sonho solto
possível um mundo novo
possível o impossível

outro é o destino do homem



mário dionísio

logo, o vestido branco


uma mulher quase nova
com um vestido quase branco

numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos

ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos

transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio

a casa da achada


este sítio é tão bom que até dói.

apetece-me dizer




que se conhecem fadas e borboletas em noites frias e se elevam cores e gargalhadas e amores.
e que nunca se deve deixar para trás o que sentimos cá dentro, mesmo que o queiramos fazer desaparecer.
a única coisa que se eclipsa é o imenso frio ou as horas que passam e nem damos por elas nos traírem os pensamentos.

há palavras que nos beijam




Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


alexandre o'neill

agora em preto

sábado, 5 de março de 2011

i´m the back door man




Hey, all you people that tryin' to sleep
I'm out to make it with my midnight dream, yeah
'Cause I'm a back door man
The men don't know
But the little girls understand


en...


... contrei o melhor condimento do mundo nos supermercados da mouraria.

quarta-feira, 2 de março de 2011

"(...) É óbvio que esse tipo de diálogo, que não precisa de uma conclusão para ter significado, é mais adequado aos amigos e mais amiúde por eles mantido. A amizade consiste, em grande parte, na verdade, nesse falar sobre algo que os amigos têm em comum. Ao falarem sobre o que têm entre si, isso se torna muito mais comum a eles. Não só o assunto ganha a sua articulação específica, mas desenvolve-se expande-se e finalmente, no decorrer do tempo e da vida, começa a constituir um pequeno mundo particular, que é compartilhado na amizade. Por outras palavras, Sócrates tentou tornar amigos os cidadãos de Atenas, e esse foi realmente um objectivo muito compreensível numa polis cuja vida consistia numa intensa e ininterrupta competição de todos contra todos, de aei aristeuein, que, sem cessar, buscava-se demonstrar ser o melhor de todos. (...) A igualação política, não-económica, é a amizade, philia. (...) A igualação na amizade não significa, naturalmente, que os amigos se tornem os mesmos, ou sejam iguais entre si, mas, antes, que se tornem parceiros iguais num mundo comum - que, juntos, constituam uma comunidade. O que a amizade alcança é justamente a comunidade e é óbvio que essa igualação traz em si, como ponto polémico, a diferenciação sempre crescente dos cidadãos, inerente a uma vida agonística. Aristóteles conclui que é a amizade, e não a justiça (como afirmava Platão na República, o grande diálogo sobre a justiça), que parece ser o vínculo nas comunidades. Para Aristóteles, a amizade está acima da justiça, porque a justiça deixa de ser necessária entre amigos.”


hannah arendt, a condição humana





“Embora todos comecem a vida inserindo-se no mundo humano através do discurso e da acção, ninguém é autor ou criador da história da sua própria vida. Por outras palavras, as histórias, resultado da acção e do discurso, revelam um agente, mas esse agente não é autor nem produtor. Alguém a iniciou e dela é o sujeito, na dupla acepção da palavra, mas ninguém é seu autor.”

hannah arendt, a condição humana

17 de março


lux

tivemos frio?


o dia carregado de tinta.
a noite dentro do bar, cheio de fumo.


deixo agora em plenos poderes do recobro a vontade de perseguir a carpa que pelas costas deslizou e coube na palma da tua mão.

livre.

e parece que

há uma apresentação de 1h30 daqui a 4 horas. :):):)

a magia

de deixar uma sala vazia.

de encontrar na porta aberta a cor mourisca dos vestidos, dos biombos, do passar das vidas e do encostar de pernas.


de ver nos braços os baggels, a bonequinha japonesa da vossa amizade, os olhares cúmplices, brilhantes, a açorda alentejana. a família. que me orgulha e faz pensar.

flores regateadas, colhidas com orgulho e que estoicamente aguentaram a noite nas vossas mãos.



salas. vozes. é tarde. a noite vai amena. vocês. nós. sempre.


terça-feira, 1 de março de 2011

foram

as tuas escolhas que te trouxeram aqui.


aproveita-as. sopra-lhes a areia. limpa-lhes as algas. retira-lhes o sal.

colhe o vento que escreve o teu nome nas entrelinhas.

sem vício. com alma. apaga. reescreve.

se desapareceres daqui

é como se deixasses de existir.