quarta-feira, 6 de julho de 2011
menos quatro, vezes dois
fui todas aquelas máscaras, e a que trago hoje é um imenso e paciente
trabalho de composição, nela estão fragmentos de todas as outras
al berto
su(Risos) #1
como é que eu descalço esta bota se não trouxe a descalçadeira?
se me perguntares a mim, es...... o gajo, pá!!!
terça-feira, 5 de julho de 2011
guardando e antevendo se rouba ao adivinho
se a lei não tivesse feito calar as mulheres para todo o sempre, talvez elas, porque inventaram aquele primeiro pecado de que todos os mais nasceram, soubessem dizer-nos o que nos falta saber, (...) que partes divina e demoníaca as compõem, que espécie de humanidade transportam dentro de si, (...) não falava do teu filho, falava das mulheres e de como geram os seres que somos, se não será por vontade delas, se é que o sabem, que cada um de nós é este pouco e este muito, esta bondade e esta maldade, esta paz e esta guerra, revolta e mansidão.
josé saramago, o evangelho segundo jesus cristo
segunda-feira, 4 de julho de 2011
40 anos
continua-se imortal.
I'm Me!
Can you dig it.
My meat is real.
My hands--how they move
balanced like lithe demons
My hair--so twined and writhing
The skin of my face--pinch the cheeks
My flaming sword tongue
spraying verbal fire-flys
I'm real.
I'm human
But I'm not an ordinary man
No No No
sexta-feira, 1 de julho de 2011
a deus
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o facto com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
Como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça.
cesariny
mira gaia
porque deitava o olhar sobre as coisas.
à noite
quinta-feira, 30 de junho de 2011
à tarde
é um tal silêncio que se ouve o sangue correr nas veias.
sossega-se e cala-se tudo.
e é muito estranho que não se ouça nada nem ninguém.
depois de tanto ruído. de dias e noites inteiras a ressoar aos ouvidos.
agora apenas corpo e água e sono.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
e houve uma noite em que a canon caiu no molho da francesinha
josé luís peixoto
terça-feira, 28 de junho de 2011
só para que saibam
ora experimentem o repeat umas 20 vezes antes de dormir.
enredo
a paixão é, de facto, passiva; na paixão há um domínio do amado sobre o amante. ter a paixão da física significa que somos inferiores à física. ter o amor da física significa que somos nós a criar a física. apaixona-se o fraco, o forte cria. quando se ama, inventa-se inteiro o objecto amado, e daí o espanto de muitas das mulheres que homens grandes amaram; porque me escolheu ele, porque reparou em mim, porque me quis tanto?
agostinho da silva, sete cartas a um jovem filósofo
segunda-feira, 27 de junho de 2011
arde

foto: fânia santos
Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminavelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razão sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.
vergílio ferreira, aparição
passavento
josé saramago, viagem a Portugal
domingo, 26 de junho de 2011
pensava
todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.
josé saramago, levantado do chão
sexta-feira, 17 de junho de 2011
When they call your name
Will you walk right up
With a smile on your face
Or will you cower in fear
In your favorite sweater
With an old love letter
I wish you would
I wish you would
Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends
They're all full of shit
With a smile on your face
And then do it again
I wish you would
When you're walking downtown
Do you wish I was there
Do you wish it was me
With the windows clear and the mannequins eyes
Do they all look like mine
You know you could
I wish you would
Come pick me up
Take me out
Fuck me up
Steal my records
Screw all my friends behind my back
With a smile on your face
And then do it again
I wish you would
ryan adams
quarta-feira, 15 de junho de 2011
«somos demasiada força»
De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.
Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:
São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo
No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
david mourão-ferreira, para amália rodrigues
alan, o cabeleireiro filósofo que corta cabelos em noite de eclipse e jura que o presságio é de que
aquilo que alguém está a ser agora, já tu foste um dia. vai chegar a vez de todos.
excepto das pedras.»
terça-feira, 14 de junho de 2011
em casa há milagres
daqueles que vêem iluminar-se o rosto de pessoas de vidas duras. no bairro percebe-se a alegria de dentro.
vive-se os santos. o alarido. a berraria.
vimos tudo da janela.
descemos, corremos, abraçámos a noite e percebemos o momento.
dissemos-lhes adeus a perder de vista.
não existe mais nada além dele. os que persistem. vivem eternamente. sobrevivem do alto. de tudo. da imensidão que nos assiste.
levo esta gente comigo. levo-nos comigo.
intencional mente
pois quem aceitaria escolher por regras? além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um orgão ou algo do género; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num orgão?
Fiodor Dostoievski, in "Cadernos do Subterrâneo"
inteligência, vulgo ruína
mais bonitos.
e mentem. como todos os outros. e acham que ninguém vê. que ninguém percebe.
que andamos a ver os seus actos exemplares incólumes.
jogadores de palavras.
juras de amor eterno que batem a persiana de um outro alguém quando a noite vai alta.
amizades fingidas à lei do maior protagonista.
sorrisos, pensares que se perdem na fanfarronice da auto-promoção.
singelos chegares de ouvidos a orelhas mocas que decidem não ouvir. mais nada.
os erros e as dúvidas da inteligência desaparecem mais depressa, sem deixar rasto, que os erros do coração; desaparecem não tanto em consequência de discussões e polémicas como graças à lógica iniludível dos acontecimentos da vida viva, que às vezes trazem consigo o verdadeiro escape e mostram o caminho adequado, senão logo, na primeira altura, num prazo relativamente breve, em certas ocasiões, sem haver necessidade de se esperar pela geração seguinte. com os erros do coração o mesmo não sucede. o erro do coração é de maior monta; significa que o espírito frequentemente, o espírito de toda a nação, está doente, sofre de qualquer contágio e não poucas vezes essa enfermidade, esse contacto, implicam tal grau de cegueira, que toda a nação se torna incurável... por mais tentativas que se façam para a salvar. pelo contrário, essa cegueira desfigura os factos a seu talante, deforma-os segundo as delirantes visões do espírito doente e até pode suceder que toda a nação prefira ir para a ruína conscientemente, quer dizer, conhecendo já a sua cegueira, a deixar-se curar... pois já não quer que a curem.
Fiodor Dostoievski, in "Diário de um Escritor"
andar
«Despedira-me de todos e já estava possuído pela habitual alegria de me pôr a caminho, a sensação de alívio sempre nova que me inunda por saber que ninguém poderá alcançar-me, que não tenho marcações feitas nem me esperam em lado nenhum, que não tenho compromissos a não ser os que o acaso possa originar. Adoro misturar-me assim com a multidão, tornar-me um viajante qualquer, liberto do meu papel, da imagem que temos de nós próprios e que por vezes é uma gaiola tão apertada como a do corpo; com a certeza de não dar de caras com alguém com quem tenha a obrigação de conversar e com a liberdade de mandar para o diabo o primeiro que tente fazê-lo.»
Tiziano Terzani, Disse-me um Adivinho
© Tinta da China



