sábado, 7 de abril de 2012

"if you can't afford dog food, you can't have a dog."



wendy & lucy, kelly reichardt, 2008

opúsculo sobre o frívolo mundo



fotos: ricardo simões

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter o dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é por ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny

watch the world spinning gently out of time.




heidi lender

e não é que me deram uma nikon para as mãos...



sonhar.

o pijama debaixo da almofada

era assim que o encontrava quando chegava a casa à noite.
dobrava-mo e punha-o ali guardadinho porque sabia que não estaria quando chegasse.
e esse hábito de quem cuida ficou-me até hoje. aprendi aquilo sem querer. a beleza de trazermos connosco o que nos deixaram deles.
o melhor que tinham e fica nos nossos gestos triviais, mundanos.

e hoje tu enrolas o cabo do iPod com perfeição e mestria depois de mo usares para a tua viagem à serra. e é assim que volta para dentro da mala. longe dos nós que lhe costumo dar com a pressa entre uma correria e outra.

nunca consegui dobrar nada na vida com a perfeição daquele pijama e deste cabo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

cobertor



empurrámos a porta do quarto e os nossos corpos bateram um de encontro ao outro, com dentes, dedos com unhas, braços firmes. depois, ficámos lado a lado, a retomar a respiração. foi assim durante seis semanas. à noite, eu trazia a caixa de costura para a sala e pregava na camisa os botões que, depois de ela sair, tinha encontrado, de gatas, no chão do quarto. às vezes, eu tinha quase medo das chamas que via nos olhos dela. eu entrava de costas no quarto. e caía sobre a cama, sabendo que, no próximo instante, ela cairia sobre mim. era rápido e foi rápido. não houve despedida. um dia, sem surpresa, percebi que ela tinha desaparecido para sempre.

josé luís peixoto, cal

quinta-feira, 5 de abril de 2012

se a música te toca ao adormecer



que seja o primeiro acorde que ouves ao acordar.

The leafless tree looked like a brain
The birds within were all the thoughts and desires within me
Hoppin' around from branch to branch, or snug in their nests listenin' in

An eagle came over the horizon and shook the branches with its sight
The softer thoughts: starlings, finches, and wrens
The softer thoughts, they all took flight

The eagle looked clear through the brain tree, emptying thoughts saved for me
Maybe I'll make this one my home, consolidate the nests of the tiny
Raise a family of might like me

Then something struck him, wings of bone
Sweet desires and soft thoughts were all gone
The eagle shrieked, "I'm alone"

Well it was time to flee the tree
The eagle snuck up on the wind one talon at a time
Being sky king of the sky, what did he have to fear
All thoughts are prey to some beast
All thoughts are prey to some beast

Sweet desire and soft thoughts, return to me
Sweet desire and soft thoughts, return to me

bill callahan, all thoughts are prey to some beast

é uma vida



18. kurt.



10. layne

quarta-feira, 4 de abril de 2012

só por dizer


foto: marco santos

crescemos.

o tempo morto



Às vezes tenho a impressão de que os sítios de onde venho não existem. Ou melhor, existem quando lá estou mas, mal saio, tenho a sensação de eles já não estarem lá só porque eu não estou lá. E ando a praticar toda a minha rapidez para ver se consigo apanhar o espaço desprevenido, mas o espaço é muito atento. O tempo não, o tempo, às vezes, engana-se e anda mais devagar… que já tenho reparado, mas o espaço é mesmo inteligente. No outro dia fui da sala à cozinha e, quando parecia que estava completamente decidido a ficar pela cozinha, corri da forma mais inadvertida e espontânea que consegui de novo para a sala e, naquele momento, tive… juro que tive quase a sensação de que a mesa e as cadeiras ainda não estavam completamente refeitas do choque, não estavam completamente materializadas. E então fui até à porta que estava lá e gritei para as pessoas que não estavam lá… para mim… para virem ver a minha… julgo que… sensação de desmaterialização espontânea da minha sala-de-estar. Mas a única pessoa que consegui cativar para a minha jornada de luta contra o espaço foi o meu vizinho que estava bêbado e em roupa interior. E então eu e o meu vizinho, que se chama Joaquim e que não tinha nada para fazer naquela tarde a não ser estar bêbado e de roupa interior, passámos três horas a tentar apanhar o espaço desprevenido, mas ele não deixou. E nunca mais jurei que tive aquela sensação, mas o Joaquim teve-a, a sensação, disse que quando chegava aos sítios tudo estava branco… e que quando olhava para trás, de repente, o sítio de onde vinha tinha ido para o espaço porque o espaço não teve tempo... porque o tempo é incompetente e, às vezes, anda devagar e o Joaquim, por estar constantemente bêbado, adquiriu super-poderes e consegue ver sempre o que não está lá. Vou fazer como o Joaquim e afogar-me no fundo de uma garrafa de conhaque, como aquele barco que o meu avô guardava na biblioteca que se perdeu com a inundação. E bebo, e trago, e mais outro trago comigo para me ajudar, e cambaleio, e tropeço, e entorpeço mas o espaço está sempre lá, o cabrão está sempre lá e o tempo está feito com ele, abranda-me o relógio que tenho na cabeça para que eu não veja que isto é uma ilusão. É uma sensação de julgo que eterna e eu tento não julgar mas julgo muito… que acho que tenho a sensação que alguma coisa aqui não está bem… que este mundo tem alguma coisa por trás a mexer os cordelinhos, a meter uma cunhazita, a orquestrar-me a banda sonora das enxaquecas. (...)

joão negreiros

people never leave. words keep them where they are supposed to be. close to the heart.



terça-feira, 3 de abril de 2012

quantas vezes



tiveste vontade de atropelar os teus próprios pensamentos por serem uma certeza tão grande que sabes no que se vão tornar daqui a alguns segundos. é à beira do precipício daquela mão que se começa a elevar mas meio segundo antes pára só que decide continuar. não por achar que deve, mas por saber que pode. milésimos de segundo depois, fechas os olhos e já está. já foi. o que não era, existe e o resto acaba de existir. deixa de ser o que sempre viste e é agora o que começas a sentir antes de pensar.
ouves o que se passa ali dentro e dizes em voz baixa: «já foste».

intrepid



i can take subways all day long.

i got your letter

need two more days to read it whole... :))) <3
you were right. it's epic.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

concerteza que já passaste por aqui



-acreditas no amor à primeira vista?
- não.
-então espera aí. vou passar outra vez.

a páscoa na aldeia



é como a páscoa no Bairro.
muita gente a beber à borla e todos já sabem onde começa e onde termina a procissão.

às vezes gostavas de ser como eu

perante grandes males, grandes remédios.
mas continuas pequeno.
a combinar com o resto.

it's an art form, isn't it? life, i mean?

I would rather die standing up, then live life on my knees.
-che

*p

acutilante


anais nïn

se até o senhor só descansou ao domingo.



Quinta 7 de Junho – Parque da Cidade
Atlas Sound
Bigott
Explosions In The Sky
StopEstra!
Suede
The Drums
The Rapture
Yann Tiersen

Sexta 8 de Junho – Parque da Cidade
Beach House
Black Lips
Chairlift
Codeine
Esperit!
Linda Martini
M83
Neon Indian
Numbers Showcase: Jackmaster, Oneman, Deadboy, Spencer, Redinho
Other Lives
Rufus Wainwright
Shellac
Tall Firs
Tennis
The Flaming Lips
The Walkmen
The War On Drugs
Thee Oh Sees
Ultramagnetic MC’s
We Trust
Wilco
Wolves In The Throne Room
Yo La Tengo

Sábado 9 de Junho – Parque da Cidade
Baxter Dury
Björk
Death Cab For Cutie
Death Grips
Demdike Stare
Dirty Three
Erol Alkan
Forest Swords
Gala Drop
I Break Horses
James Ferraro and the Bodyguard
John Talabot (Live)
Lee Ranaldo
Mujeres
Saint Etienne
Siskiyou
Sleepy Sun
Spiritualized
The Afghan Whigs
The Right Ons
The Weeknd
The xx
Veronica Falls
Washed Out
Wavves

Domingo 10 de Junho – Casa da Música
Jeff Mangum (Neutral Milk Hotel)
The Olivia Tremor Control

(só para passes)

\m/

burn. burn. burn.

quando se lê kerouac, não se quer mais nada.
tudo parece pouco.

domingo, 1 de abril de 2012

deep sea diver



Day end of day
Each hanging spiral

Where is the shore

From this clear blue silence

Up to the heavens that you daydream
Remembering the sun and the deep green ivy

I know that sleep walking too

In trying to be free

Of all this damage in my eyes
Making confusion in my mind

When I hear a resurrection song

Night lays me down when I'm fading

When I can't go home because they hate me
To sing that resurrection song

Day end of day

Each hanging spiral

What do you make
Of this clear blue silence

Now that the engine driver

Has grown to be a deep sea diver
And the street has got no end
Better keep your heart strong little friend

Thought I heard a resurrection song

Thought I heard a resurrection song


mark lanegan, resurrection song

mark lanegan @ hardclub





to the sea

i

With piranha teeth
I been dreaming of you

And the taste of your love so sweet
Honest its true
Through my heart flows sleep
And the dark heavy rain
Where the gravedigger's song is sung
You've been torturing me
Tout est noir, mon amour
Tout est blanc
Je t'aime, mon amour
Comme j'aime la nuit
Love, is the medicine good?
Is the crow flying eight miles high?
Over wire and wood
Shovel down six feet

With a head heavy pain
The magnolia blooms so sweet

And it fades just the same

To the stars my love
To the sea
To the wheels my love
Till they roll all over me
Oh love, i been thinking of you
With razor white teeth so sharp

Honest its true
In my blood flows sleep
And the dark heavy rain
The magnolia blooms so sweet
Only torturing me
To the stars my love
To the sea
To the wheels my love
Till they roll all over me


mark lanegan, the gravedigger's song

do que a lia nos trouxe


foto: lia pereira