sexta-feira, 23 de setembro de 2011

da presença eterna

dos sonhos



Even in the state of dream the instruments of the self are not altogether at rest, because
scripture states that even then it is connected with Buddhi (intellect). “Having become a dream, together with Buddhi it passes beyond this world.”

philosophy of dreams,
swami shivananda

do talento assombroso

prenderam hoje um desgraçado por downloads ilegais neste país. uma injecção letal ontem nos e.u.a. matou um inocente. hoje na ONU vota-se o direito de existir uma palestina. o cavaco andava esta semana a passear pelos açores.

com tantos ladrões, criminosos verdadeiros e assassinos de sonhos à solta, pode-se dizer que isto já levava uma purga.

da verdade.



quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

daquele cinema


comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um cartucho de amendoins e entraste no cinema. sentámo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho de amendoins, com um ruído exactamente igual ao meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quando a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de amendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de amendoins no colo. com a mão direita comecei a levantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu levantaste levemente as nádegas do assento. com esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendoins. assim que os amendoins acabaram de se espalhar no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas esqueci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro-me de que passei o tempo quase todo até ao intervalo recolhendo amendoins. todo o tempo tu não deixaste de suspirar e de gemer, embora estivesse apenas a decorrer um documentário sobre o narciso e nenhum drama comovente. a voz do locutor lembro-me que dizia: «no começo da primavera, quando montes e vales acordam do longo sono de inverno, centenas e centenas de narcisos elevam as douradas cabeças em todas as frestas e abrigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da floresta.» isto, como certamente te lembras, foi antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quantas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu, de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da crítica, era daqueles que se não podem perder.



alberto pimenta, a evocação do chimpanzé

terça-feira, 20 de setembro de 2011

do eterno devir

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.



E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.



Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.


Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.



E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.


Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior

da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.


Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

herberto helder, lugar (poema II)

chega-se mais tarde a casa.



curso livre de jazz no clube literário do porto, por josé duarte.

uma muda de roupa.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

da imortalidade



All men fear death. It's a natural fear that consumes us all. We fear death because we feel that we haven't loved well enough or loved at all, which ultimately are one and the same. However, when you make love with a truly great woman, one that deserves the utmost respect in this world and one that makes you feel truly powerful, that fear of death completely disappears. Because when you are sharing your body and heart with a great woman the world fades away. You two are the only ones in the entire universe. You conquer what most lesser men have never conquered before, you have conquered a great woman's heart, the most vulnerable thing she can offer to another. Death no longer lingers in the mind. Fear no longer clouds your heart. Only passion for living, and for loving, become your sole reality. This is no easy task for it takes insurmountable courage. But remember this, for that moment when you are making love with a woman of true greatness you will feel immortal.

hemingway in midnight in paris, woody allen, 2011

do manúbrio



«A intencionalidade de um pensamento, emoção, percepção, etc. existe quando esse mesmo pensamento, emoção ou percepção é acerca de algo. Isto é, dizer que um estado mental tem intencionalidade significa que ele é acerca de alguma coisa. Por exemplo, quando pensamos, pensamos acerca de alguma coisa, logo o pensamento é intencional; quando sentimos, sentimos em relação a alguma coisa, logo o sentimento é intencional. »

respiro-te ainda




a duas mãos

domingo, 18 de setembro de 2011

lisboa que amanhece



Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo

A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece

sérgio godinho

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

silence has become the most expensive luxury

irra!!!



4 meses depois, a justiça tarda mas não falha.
a lentidão é que continua a ser o que mais nos resiste.
e obriga-nos a viver ao ritmo dela. quer queiramos, quer não.
até ao dia em que atiramos tudo ao ar e trocamos as regras do jogo.
chama-se a isso revolução.

«i want you your presence as a present.»



i would put on a shiny coat of armor and have a crazy magic sword and fight (and look silly at the same time)

you made my morning. better than the best coffee

a vida



córtex cerebral apinhado de imagens felizes de gente que se abraça.
só quando percebi que perdi uma casa em lisboa mas ganhei 4 ou 5, as vossas, que me esperam sempre, e preparam tudo com carinho, e pensam até ao último pormenor no que é que vamos fazer num sábado à noite finalmente juntos outra vez nessas ruas, é que encaixei a realidade de quanto esta mudança foi uma das decisões mais difíceis mas acertadas que alguma vez tomei.

ganha-se uma nova família. alegre. sem perguntas, sem dúvidas. apenas olhares que acolhem. que abraçam todos os dias.
e pára-se tudo para ouvir. por se saber que o que importa no fundo são sempre as pessoas.

e que se volta sempre ao lugar onde fomos felizes. a luzboa. e que aqui tudo fica em amena calmaria até ao regresso.

a6, auto-estrada lisboa/memórias de sempre



noite dentro
we will always have paris :D

até já*

terça-feira, 13 de setembro de 2011

hoje




Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

ruy belo

ontem



era já tarde ao passar por coimbra.
era o costume sempre que vinha do norte.
entrei na loja de vinis junto ao quebra costas e trouxe dois.

e ignorei à grande o aviso ao fechar a porta: não fiques praí a ouvir músicas deprimentes, não?

but it's just the devil in me



«when i was at the BSS show
in the front row alone
just the music and
with the sun beating behind me
i remembered how happy your text made me feel
when you texted me from the other side of the world
my heart skipped a beat
and then jumped
i wanted to reach out and embrace you»


mine too, tonight.
thank you.

ipsis verbis


foto: fânia santos

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

fecha os olhos e escolhe uma


Sometimes I feel like I'm falling Fall back again, fall back again, Fall back again, fall back again Oh, life it seems a struggle between What we think what we see I'm not going to change my ways Just to please you or appease you Inside a crowd, five billion proud Willing to punch it out Right, wrong, weak, strong Ashes to ashes all fall down Look around about this round About this merry-go-round around If at all God's gaze upon us fall His mischievous grin, look at him Forget about the reasons and The treasons we are seeking Forget about the notion that Our emotions can be swept away

Forget about being guilty,

We are innocent instead

For soon we will all find our lives swept away