terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

manhãs


É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.


david mourão-ferreira


flutuamos

We wanted to find love
We wanted success
Until nothing was enough
Until my middle name was excess

Somehow I lost touch
When you went out of sight
When you got lost into the city
Got lost into the night

I was in need of help
Heading to blackout
Till someone told me "run on in honey
Before somebody blows your goddamn brains out"

You shoplifted as a child
I had a model's smile
You carried all my hopes
Until something broke inside
But now

We float
Take life as it comes
We float
Take life as it comes

So will we die of shock?
Die without a trial?
Die on Good Friday?
While holding each other tight

This is kind of about you
This is kind of about me
We just kinda lost our way
We were looking to be free
But one day

We'll float
Take life as it comes
We'll float
Take life as it comes

polly jean h.


unkle @ brixton academy


sold out \m/

control


"Blood. Sometimes it sets my teeth on edge, other times it helps me control the chaos."


dexter

domingo, 6 de fevereiro de 2011

existe, sim




Como uma esperança negra, qualquer coisa de mais antecipador pairou: a mesma chuva pareceu intimidar-se; um negrume surdo calou-se sobre o ambiente. E súbito, como um grito, um formidável dia estilhaçou-se. Uma luz de inferno frio visitara o conteúdo de tudo, e enchera os cérebros e os recantos. Tudo pasmou. Um peso caiu de tudo porque o golpe passara. A chuva triste era alegre com o seu ruído bruto e humilde. Sem querer, o coração sentia-se e pensar era um estonteamento. Uma vaga religião formava-se no escritório. Ninguém estava quem era, e o patrão Vasques apareceu à porta do gabinete para pensar em dizer qualquer coisa. O Moreira sorriu, tendo ainda nos arredores da cara o amarelo do medo súbito. E o seu sorriso dizia que sem dúvida o trovão seguinte deveria ser já mais longe. Uma carroça rápida estorvou alto os ruídos da rua. Involuntariamente o telefone tiritou. O patrão Vasques, em vez de retroceder para o escritório, avançou para o aparelho da sala grande. Houve um repouso e um silêncio e a chuva caía como um pesadelo. O patrão Vasques esqueceu-se do telefone, que não tocara mais. O moço mexeu-se, ao fundo da casa, como uma coisa incómoda.

Uma grande alegria, cheia de repouso e de livração, desconcertou-nos a todos. Trabalhámos meio tontos, agradáveis, sociáveis com uma profusão natural. O moço, sem que ninguém lho dissesse, abriu amplas as janelas. Um cheiro a qualquer coisa fresca entrou, com o ar de água, pela grande sala de adentro. A chuva, já leve, caía humilde. Os sons da rua, que continuavam os mesmos, eram diferentes. Ouvia-se a voz dos carroceiros, e eram realmente gente. Nitidamente, na rua ao lado, as campainhas dos eléctricos tinham também uma socialidade connosco. Uma gargalhada de criança deserta fez de canário na atmosfera limpa. A chuva leve decresceu.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse do guarda-vento entreaberto, «Podem sair», e disse-o como uma bênção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o. Pus a caneta visivelmente sobre a depressão do tinteiro, e avançando para o Moreira, disse-lhe um «até amanhã» cheio de esperança, e apertei-lhe a mão como depois de um grande favor.



bernardo soares, o livro do desassossego


há uma hora

saímos...





gente feliz
gente infeliz

o que importa é ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.



o êxtase dos anjos




1972, wakamatsu


(...) porque a poesia não é para galvanizar isso
a poesia a poesia
o recôncavo azul do firmamento
que é negro
e outras coisas mais
se ainda é tempo de ver por cima do prato
os vigia os paloma os clandestinos os lâmpara
os invisíveis anjos guardadores
do trabalho que não pode ser adiado
e não esta linguagem de lamento esta linha de rogo que frustra a voz
não este verso exposto a mil vagares na almofada branca de uma página
mil vezes decapitada na praça pública
em oitavas e quartas paralelas e sétimas dominantes cheias de horror
e ainda assim contentes
de bailarem em torno do seu próprio círculo
mas o que na manhã só uma vez quase ouvimos
um para o outro
um dentro do outro
mais interiores à magnificência da espécie
do que aos espaçosos e nobres labirintos do canto


olha o côncavo azul
, mário cesariny



luz nova



a vida não é sonho.
abro a porta da rua, olho para trás e apago a luz.



this is not simply a metaphor



julião sarmento, 2002


interditar a memória.
Tornar a inteligência bela é voltar à não inteligência.
Só é belo o que não é inteligente; porque o inteligente é o não imediato: um passo atrás ou à frente, enquanto o belo é o instante, a superfície tão fina que frente igual a COSTAS, o início é o mesmo que o FIM.
interditar a memória.
a memória é ocupação do espaço.
a memória é o não imediato,
a memória é o inteligente.
O Corpo inteligente é inteligente mas não é corpo porque corpo é estar presente, agora, por completo, e o inteligente, repito o inteligente é o não-imediato, um passo atrás ou à Frente.
a dança não tem Memória.
A criatividade não tem Memória.
O Corpo começa agora no momento que acaba.
O Corpo começa no mesmo sítio que acaba.
O corpo é 1 sítio e 1 tempo e depois 1 outro sítio e 1 outro tempo que não recordam o sítio e o tempo anteriores.
CORPO AMNÉSICO.
Esqueceu porquê aqui e agora.
Aqui e agora e antes nada.
Aqui e agora e depois nada.
CORPO AMNÉSICO e sem projectos.
Cortar-lhe a cadeira dos velhos e o monte donde se vê o FUTURO dos NOVOS.
Um CORPO sem cadeira (não há cansaço porque antes não existiu) e UM CORPO sem VISÃO (o FUTURO é 1 espaço onde ainda não se chegou).
Sem visão não há nenhum lado onde se chegar, e sem cadeira não há sítio onde descansar, portanto só resta ao corpo ser todo aqui e agora e só resta ao corpo dançar.
(Corpo a quem cortaram a cadeira e os olhos).

Gonçalo M. Tavares, «O Livro da Dança», Assírio & Alvim (2001)



the fifty faces of juliet



nelson d'aires

black



- what happened to my sweet girl?

- she's gone...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

5 mulheres à volta de utamaro



Kenji Mizoguchi realizou este filme num Japão ocupado e em plena reconstrução norte-americana. Embora o nome e personagem advenham do artista japonês do século XVIII do mesmo nome, a comparação com a própria vida de Mizoguchi é inevitável. O pintor Utamaro procura retratar mulheres de extraordinária beleza, e para tal frequenta assiduamente os bordéis de forma a encontrar as suas modelos. Embora apreciada por diversos admiradores, a sua arte acaba por metê-lo em problemas. Tal como Utamaro, Mizoguchi (admirado por uns e ignorado por outros) desafiou o conservadorismo de MacArthur com temas de emancipação feminina e democracia liberal, conseguindo eventualmente autorização para estejidai-geki, hoje considerado uma obra-prima. Em ciclo “Cinema e Pintura”.

Na Mouraria :)
manifestei a visão de ser altruísta ao ponto de me estar a marimbar para a almofada onde pouso a cabeça.

desde que seja macia, cheire a ti e me deixe moldar o cabelo em madeixas soltas que implicam constantemente com a espuma do colchão e as molas do estrado.

enrolar-me no lençol, era só isso, e enrolar.

mais uma vez.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

muro



um homem tem de saber fazer fogo.


como uma mulher tem de saber sorrir quando ele não consegue.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

figos




A maneira correcta de comer um figo à mesa

É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina. (...)

d.h. lawrence

trad. herberto hélder, as magias - poemas mudados para português


igualmente

«Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido. A ausência de dor geralmente só é «sentida» no breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista é a libertação da dor, e não a sua ausência. A intensidade de tal sensação é indubitável; na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.»



Hannah Arendt, A Condição Humana

the real thing

I know the feeling
It is the real thing
The essence of the truth
The perfect moment
That golden moment
I know you feel it too
I know the feeling
It is the real thing
You can't refuse the embrace

This is so unreal, what I feel
Flood, sell your soul, feel the blood
Pump through your veins, can't explain
The element that's everything
Just clench your fist and close your eyes
Look deep inside, hypnotize
Yes, the ecstasy, you can pray
You will never let it slip away

Like the echoes of your childhood laughter, ever after
Like the first time love urged you to take it's guidance, in silence
Like your heartbeat when you realize you're dying, but you're trying
Like the way you cry for a happy ending, ending
I know

f.n.m.





Não sei como vieste,


mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

e.a.


«still»


cindy sherman, 1978

o conceito de feminino que se perdeu na noite dos tempos chega agora amarrado ao fazer tudo, ser tudo, aguentar tudo e ao mesmo tempo, não se perder em nada. porque a mulher consegue milagres. e se não conseguir, virá outra que consiga e queira. que aguente. que se sujeite. ora, diz-me o instinto que o caminho enveredou pela porta mais sinuosa. e que existem limites para tudo. até para quando nos asseguram que não. que somos capazes de lá ir. e fazer. doa a quem doer.

pestanejo. duvido. escondo. pensando que sou capaz.

the diver within




Paul Thek, installation view "Ark, Pyramid, Easter - a visiting group show", Museum of Art Lucerne, 1973 © Museum of Art Lucerne


e depois ela tomou banho em morango e ele ficou a ver

«but... I was thinking that I could read the books and tell you what's going on and that way you could just focus on your music. But only if you're comfortable with this, and if you're not then you can just forget it, and you can quit, but if you are... then open this door.»