sexta-feira, 28 de outubro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
sente-se-lhe o cheiro
Tentar entender aquilo por que passamos quando uma perda se dá - negação, atracção, consumação, espera, desespero, aceitação, luto, sobrevivência – faz com que possamos estar alertados para os danos que uma perda causa e que evitemos contribuir para que outras aconteçam. Ou pelo menos, não podendo evitar que aconteçam, podemos tentar minimizar o sofrimento associado.
Esta festa também faz com que me lembre da primeira festa a que fui, na metrópole. Naquela altura os retornados eram facilmente identificáveis pelos de cá: pela forma como nos vestíamos – roupas que tínhamos trazido de lá e que não eram habituais aqui ou roupa que nos era dada por organizações de caridade e que nunca era apropriada – pelo tom de pele, pelo sotaque. Éramos facilmente identificáveis e ninguém se queria dar connosco: tínhamos estado em África a explorar os pretos e tínhamos condutas reprováveis. Nunca era convidada para os aniversários dos meus colegas. Via os outros serem convidados e eu não. E ficava triste. Não é fácil lidar com a rejeição. Até que um dia houve uma colega que me convidou. Nem consegui dormir, tão contente fiquei. Preparei-me para a festa, entusiasmada. Pensava nas festas de Luanda e mal podia esperar que o dia chegasse. Mas o dia chegou e a festa resumia-se a um gira-discos colocado em cima de uma cama, à volta da qual pouco espaço havia para dançar, e a um lanche em que o grande atractivo eram pratinhos com bolachas Maria empilhadas e moles. Percebi imediatamente que não queria aquelas festas. Passar de rejeitado ao que rejeita por vezes demora menos de nada.
Já ninguém consegue identificar e reconhecer os retornados. É o que se chama integração: deixa-se de dar conta daquilo que eram os elementos estranhos. Será porque eles deixaram de ser distintos ou porque passaram a usar uma máscara que faz com que ninguém seja já capaz de reconhece-los como estranhos? Estou convencida de que estarmos integrados, retornados ou não, tem mais que ver com combinarmos usar todos a mesma máscara. Despidos da mesma farda, sentimo-nos mais ameaçados ou mais ameaçadores. Raramente queremos isso. (...)
Esta festa também faz com que me lembre da primeira festa a que fui, na metrópole. Naquela altura os retornados eram facilmente identificáveis pelos de cá: pela forma como nos vestíamos – roupas que tínhamos trazido de lá e que não eram habituais aqui ou roupa que nos era dada por organizações de caridade e que nunca era apropriada – pelo tom de pele, pelo sotaque. Éramos facilmente identificáveis e ninguém se queria dar connosco: tínhamos estado em África a explorar os pretos e tínhamos condutas reprováveis. Nunca era convidada para os aniversários dos meus colegas. Via os outros serem convidados e eu não. E ficava triste. Não é fácil lidar com a rejeição. Até que um dia houve uma colega que me convidou. Nem consegui dormir, tão contente fiquei. Preparei-me para a festa, entusiasmada. Pensava nas festas de Luanda e mal podia esperar que o dia chegasse. Mas o dia chegou e a festa resumia-se a um gira-discos colocado em cima de uma cama, à volta da qual pouco espaço havia para dançar, e a um lanche em que o grande atractivo eram pratinhos com bolachas Maria empilhadas e moles. Percebi imediatamente que não queria aquelas festas. Passar de rejeitado ao que rejeita por vezes demora menos de nada.
Já ninguém consegue identificar e reconhecer os retornados. É o que se chama integração: deixa-se de dar conta daquilo que eram os elementos estranhos. Será porque eles deixaram de ser distintos ou porque passaram a usar uma máscara que faz com que ninguém seja já capaz de reconhece-los como estranhos? Estou convencida de que estarmos integrados, retornados ou não, tem mais que ver com combinarmos usar todos a mesma máscara. Despidos da mesma farda, sentimo-nos mais ameaçados ou mais ameaçadores. Raramente queremos isso. (...)
dulce maria cardoso, o retorno, tinta da china
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
dos pequenos grandes prazeres

da fotografia e dos discos de vinil.
do aportar em livros antigos que parecem sempre novos.
do cheiro a madeira do soalho do soares dos reis.
do sol de manhã bem cedo na tua janela e no espelho de serralves.
do chegar a casa e sempre o mesmo ruído de patinhas pelo chão.
do teu sorriso ao acordar. e até da tua preguiça. que me empata.
nesta que te emoldurei. e na minha falácia por saber que vou ter de te traduzir isto tudo quando mo pedires. :)))
utilidades
hoje calhou usar na maggie um jornal com as trombas do alberto joão jardim.
finalmente, percebi a utilidade perfeita para uma fronha daquelas.
entretanto tive uma ideia brilhante quanto a algumas fotos que encontrei cá por casa.
e por falar em casa, esta é enorme, gigante. foi difícil habituar-me a tanto espaço. faz-me sentir uma formiga.
no outro dia lembraram-se de me dizer que se um dia precisasse, tinha sempre um botão de pânico num sítio estratégico da casa.
é daquelas coisas.
preferia não saber. preferia não pensar nessa possibilidade, mas na vida temos de estar prontos para tudo. mesmo quando não queremos saber e tapamos o sol com a peneira.
existe sempre a hipótese de assalto à mão armada. e disparos à queima roupa.
mas passo pelo botão e ignoro-o. finjo que não está ali. opto mesmo por esquecer.
finalmente, percebi a utilidade perfeita para uma fronha daquelas.
entretanto tive uma ideia brilhante quanto a algumas fotos que encontrei cá por casa.
e por falar em casa, esta é enorme, gigante. foi difícil habituar-me a tanto espaço. faz-me sentir uma formiga.
no outro dia lembraram-se de me dizer que se um dia precisasse, tinha sempre um botão de pânico num sítio estratégico da casa.
é daquelas coisas.
preferia não saber. preferia não pensar nessa possibilidade, mas na vida temos de estar prontos para tudo. mesmo quando não queremos saber e tapamos o sol com a peneira.
existe sempre a hipótese de assalto à mão armada. e disparos à queima roupa.
mas passo pelo botão e ignoro-o. finjo que não está ali. opto mesmo por esquecer.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
do que todos pensam mas só ele diz
«há um cansaço conjugal, de não se poder ver a pessoa à mesa, quanto mais na cama»
luiz pacheco, Tabu 12.Jan.2008
luiz pacheco, Tabu 12.Jan.2008
pqvpat!!! \O/

A FinePix S3200 da Fuji é uma bridge com sensor CCD de 14 megapixeis que possui um zoom óptico 24x da grande-angular 24 mm à teleobjectiva 576 mm.
Dotada de um sistema duplo de estabilização digital e mecânica, esta FinePix fornece imagens cheias de cor e de detalhes. Intuitiva, a FinePix S3200 dispõe de vários modos automáticos, como o reconhecimento das cenas ou a detecção dos rostos. A bridge S3200 adapta-se a todas as situações e a todos os sujeitos e até aos mais pequenos, visto que inclui um modo de detecção dos bebés.
Rápida como uma reflex digital, esta Fuji possui um modo de bracketing para registar até 8 imagens por segundo. Equipada igualmente com um modo de vídeo HD 720p e uma porta HDMI, a FinePix S3200 satisfará todas as suas necessidades.
ui. confesso que o que mais pesou na escolha foi o modo de detecção de bebés. dah! :)
animal a 3 km
O Homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos.
Eles sabem o que precisam saber. Nós não...
Eles sabem o que precisam saber. Nós não...
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
do ridículo
(...) E esta fatídica vocação para as pantufas… Conta-se que, depois do terramoto, alguns aristocratas que ficaram sem palácio instalaram-se em barracões onde é hoje o Rato, com grande promiscuidade e as couvinhas lá atrás. Quando os palácios ficaram prontos, não queriam sair, pois era ali que lhes sabia bem. Isto define a mentalidade portuguesa. A arte em Portugal não tem a ter com a vida. O museu e o espectáculo são coisas que se passam em lugares fechados, com horário e um culto feito em grande parte de snobismo e de obrigação social. Daí o grande desconforto dos artistas em Portugal, uma espécie de marcianos, porque aquilo que fazem não tem nada a ver com os interesses da sociedade. Em Itália. o cidadão mais humilde tem uma intuição, um conhecimento e uma veneração pela arte que aqui terá talvez o equivalente na veneração pela Nossa Senhora de Fátima. Até coincide porque é a veneração por um desconhecido, pelo que está para além da razão. Se não houvesse motivos exteriores, não creio que fizesse falta a quem quer que fosse ir a exposições de pintura, ao teatro ou à ópera.
Há um egoísmo perfeitamente catastrófico que caracteriza os portugueses. No seu dia-a-dia, desde que tenha resolvido o seu problemazinho e possa comer o seu bifinho com batatas fritas ou o seu bacalhauzinho, já tira dai um prazerzinho que o deixa satisfeito. O Eça usou todos esses diminutivos com razão, porque tudo é pequeno, da dimensão ao espírito. Satisfazem-se com pouco.
Outra característica dos portugueses é ter medo do risco, podem cair no ridículo, que fica muito mal. Ora para fazer grandes coisas, é preciso arriscar cair do trapézio. Mas os portugueses preferem trabalhar com rede ou então a um metro do chão. Os Descobrimentos foram uma necessidade porque essa gente que vinha do Norte do Pais, a cair de fome e a morrer pelo caminho, não tinha outra hipótese. E não esqueçamos os mercenários. Os relatos deixam-nos imaginar o tormento daquelas viagens, com doenças e sem comida, em condições de puro desespero. Depois, lá veio a mitificação histórica. Obviamente haveria alguns, poucos, a começar pelo infante D. Henrique, que teriam o seu projecto de alargar a Terra, de chegar a qualquer lado e de tirar lucro, que é o que faz correr o homem. O Camões diz textualmente, n’Os Lusíadas, que «nunca houve nação, nem bárbara, que prezasse tão pouco as artes como a portuguesa». E o padre António Vieira dizia, naquelas etimologias divertidas, que o mundo é mundo porque, por antífrase, é imundo tal como a Lusitânia se chama assim já que não deixa luzir ninguém por causa da inveja. E podíamos continuar com o Eça, com o António Nobre, com os que reflectiram porque tiveram oportunidade de comparar… (…).
Há um egoísmo perfeitamente catastrófico que caracteriza os portugueses. No seu dia-a-dia, desde que tenha resolvido o seu problemazinho e possa comer o seu bifinho com batatas fritas ou o seu bacalhauzinho, já tira dai um prazerzinho que o deixa satisfeito. O Eça usou todos esses diminutivos com razão, porque tudo é pequeno, da dimensão ao espírito. Satisfazem-se com pouco.
Outra característica dos portugueses é ter medo do risco, podem cair no ridículo, que fica muito mal. Ora para fazer grandes coisas, é preciso arriscar cair do trapézio. Mas os portugueses preferem trabalhar com rede ou então a um metro do chão. Os Descobrimentos foram uma necessidade porque essa gente que vinha do Norte do Pais, a cair de fome e a morrer pelo caminho, não tinha outra hipótese. E não esqueçamos os mercenários. Os relatos deixam-nos imaginar o tormento daquelas viagens, com doenças e sem comida, em condições de puro desespero. Depois, lá veio a mitificação histórica. Obviamente haveria alguns, poucos, a começar pelo infante D. Henrique, que teriam o seu projecto de alargar a Terra, de chegar a qualquer lado e de tirar lucro, que é o que faz correr o homem. O Camões diz textualmente, n’Os Lusíadas, que «nunca houve nação, nem bárbara, que prezasse tão pouco as artes como a portuguesa». E o padre António Vieira dizia, naquelas etimologias divertidas, que o mundo é mundo porque, por antífrase, é imundo tal como a Lusitânia se chama assim já que não deixa luzir ninguém por causa da inveja. E podíamos continuar com o Eça, com o António Nobre, com os que reflectiram porque tiveram oportunidade de comparar… (…).
que é quase como quem diz: bater primeiro e perguntar depois.
armar aos CUCOS de costas quentes à vista desarmada.
mania da perseguição e complexo de inferioridade.
putos. que nunca pagaram uma conta na vida e respiram o ar que os papás produzem em cimenteiras e linhas bancárias moderninhas.
a raiva que ainda os assiste. alimenta-os. poupa-se no pão.
alberto pimenta (aka o génio vestia o raça do blusão vermelho todos os 256 dias de aulas)
dos enganos
Quando regressava ao albergue pelas ruelas curvas e empedradas de Auxerre, viu numa pequena praça com quatro álamos de folhas branquíssimas recém-despontadas um pequeno grupo de meninas que brincavam, formando figuras que as suas corridas faziam e desfaziam. Deteve-se a observá-las. Jogavam ao Paraíso, esse jogo que segundo a tua mãe, tinhas jogado nos jardins de Vaugirard com amiguinhas da vizinhança, sob o olhar risonho de don Mariano. Lembravas-te Florita? «É aqui o Paraíso?» «Não, menina, é na outra esquina.» E enquanto a menina, de esquina em esquina, perguntava pelo esquivo Paraíso, as restantes divertiam-se mudando de lugar nas suas costas.
mario vargas llosa
o porco trágico
conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é fome de sobremesa alheia.
a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito/
de si
e pouco ou nada dos outros.
o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.
Alberto Pimenta
aftermath
and they say: back then our universe
was an empty sea –until a silver fox
and her cunning mate began to sing
a song that became the world we know
björk
was an empty sea –until a silver fox
and her cunning mate began to sing
a song that became the world we know
björk
não é todos os dias
que encontramos o que de melhor existe no ser humano.
um dia em que a tinha chateado mesmo muito, a minha mãe cortou-me a vontade de a arreliar mais dizendo, nas suas palavras duras e cheias de farpas, que por mais que errassem, se perdessem ou enveredassem por vidas difíceis, as pessoas voltam sempre para quem as ama de verdade. que não adiantava tentar encontrar formas ou desculpas para a fazer detestar-me ou aos meus modos. implícita a certeza de que teria sempre um lugar ali. andasse por onde andasse ou fizesse o que fizesse. naquele jeito retorcido de quem deixou muito por dizer. quando aí chego, é sempre esse lugar que procuro. hoje tenho a certeza que se encontra algures nos vossos braços, nas mesas recheadas de compotas e nos chás, nos pastéis e no consolo dos filmes nas madrugadas ou ao fim da tarde de domingo, à chuva.
hoje encontro-o nos vossos olhos. nas notícias e no partilhar genuíno dos dias que vou perdendo ao vosso lado mas que recuperamos sempre ao chegar.
e não é preciso esperar porque parece que foi só ontem. parece que foi agora.
o essencial sempre persiste. *****
(ainda agora me pergunto para que quereria as 3 árvores de natal.)
facilitismo

"I am not an auteur, well, not now anyway, We once believed we were auteurs but we weren't. We had no idea, really. Film is over. It's sad nobody is really exploring it. But what to do? And anyway, with mobile phones and everything, everyone is now an auteur."
- jean-luc godard, in interview with fiachra gibbons, july 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
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