quarta-feira, 10 de outubro de 2012

cinemateca sem verba para a legendagem.

eu vi, mas não acreditei.


reconhecer as entrelinhas no corpo do texto.
















Da montanha ao monte, cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por Quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte, 

Caminhais secretos.

 

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.


Fernando Pessoa, Cancioneiro 

Fotografia: Fernando Dinis Music/Photography

TransVerso

domingo, 7 de outubro de 2012

O Tempo Dum Corisco

Dos turcos desce a palavra
e aqui entreluz, naufraga.

A palavra a ninguém salva.

Melhor metê-la, sem esperança,
sem recado, na garrafa.

Sempre é da minha lavra.


- Alexandre O'Neill, Poesias Completas
Fotografia: Fernando Dinis Music/Photography

TransVerso

sábado, 6 de outubro de 2012

a noite em que a bandeira fez sirshásana.

Cenário possível nesta noite lisboeta: Terezinha vem a caminho de casa sem óculos, tropeça numa barricada anti-manifs na Assembleia e quase despoleta novas palavras de ordem acaloradas contra a austeridade!

 o_O.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

canela*














o.h.a.

mas quem está em condições de
afirmar com toda a segurança
que os ponteiros do relógio andam
para a frente? ninguém está
em condições de afirmar com toda a segurança
que os ponteiros do relógio andam
para a frente, porque, como v.exa. sabe,
os ponteiros do relógio andam à roda.


alberto pimenta

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

é a vergonha.

é a segunda noite que passo por eles no caminho de casa. raso a escadaria e chego-me mais perto para ver. sentir ao menos o que lhes vai na pele e no corpo que há duas noites por ali ficam. 

há um grupo de gente a que poucos dão ouvidos. mas eles ali estão. não chegam a duas dezenas.
perguntei se queriam um cobertor, ou água.
disseram que tinham «carros de apoio». os amigos, os pais, (o)as namorad(o)as.

são cidadãos com deficiência que protestam devido aos cortes nos apoios do Estado que já poucos ou nenhuns eram.
é a tristeza de ver como se tratam pessoas que realmente precisam neste país.
conversámos um pouco e agradeceram por ter passado por lá.
se ao menos todos fizessem o mesmo, a família não tinha de estar sempre por ali a cuidar do frio e da fome.
deixei-os ali em sossego, mas assegurei que voltava mais tarde. fosse preciso ou não, há coisas que não se perguntam.

por isso deixo-vos esta nota muito breve. levantem os rabos do sofázinho de subúrbio sonolento.
venham encontrá-los, sentir como eles e dar apoio com o que tiverem.
deixem-se de conversas bonitas e declarações acaloradas no virtual.
disso, ninguém se alimenta nem aquece.


e para finalizar, deixo-vos algo antigo, mas tão certeiro que até dói nos olhos.

«Este governo não cairá porque não é um edifício,
sairá com benzina porque é uma nódoa
»...

Eça de Queiroz

piramida

Nome da cidade de um colunato mineiro inserido no regime soviético, que foi erguida na Ilha Norueguesa de Spitsbergen, onde os Efterklang andaram a captar coisas maravihosas ♥




terça-feira, 2 de outubro de 2012

assim devagarinho e com um sorriso amarelo.

Eu achava que o Inferno da Luz era estacionar regularmente no Estádio. Isso antes de estacionar no Estádio em dia de Jogo com o FCB o_O. 
- «Sr. Agente, eu trabalho ali dentro, e acho que me perdi para aceder ao parque do clube. Posso deixar no passeio só uma horinha?» 
- «Pode, menina. Haja quem queira trabalhar no meio desta confusão». 

o_O burp.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

dia 1.

(...)
Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor do lixo e do descuido,
Deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
Que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro preconceito,
Que o teu único defeito é ter demasiadas qualidades e tropeçar nelas.

Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente

Que és por demais inteligente, para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus.
De fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhor do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente, por tudo e por nada, com medo de ser inventada
O que é que te falta, agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração ou só te resta morrer desintegrada?

Mas minha geração,

Valeu a trapaça, até teve graça, tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo, e a comida estava óptima! O que vamos fazer? 


jp simões, retrato

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

os dias de novembro que há dez anos, me caíram no colo. sim, passaram dez anos. e o tempo melhora tudo*

 Turn On The Bright Lights
Tenth Anniversary Edition
Release date: November 19th, 2012
Now fully remastered in a beautiful deluxe hardbound book with unreleased photos (48 pages in the CD, 28 large pages in the vinyl) and a second disc of bonus tracks, many unreleased, plus demos and B-sides and a DVD.
The album will be available as a double CD+DVD, double LP+DVD, and digital album with digital booklet. Preorders will come with a replica of the band's first item of merchandise, a button with the original Interpol logo.
The original album, remastered
  1. Untitled
  2. Obstacle 1
  3. NYC
  4. PDA
  5. Say Hello To The Angels
  6. Hands Away
  7. Obstacle 2
  8. Stella Was A Diver And She
  9. Was Always Down
  10. Roland
  11. The New
  12. Leif Erikson
The Bonus Material
  1. Interlude (iTunes single) §
  2. Specialist (Interpol  EP)
  3. PDA (First Demo, 1998)
  4. Roland (First Demo, 1998)
  5. Get The Girls (Song 5) (First Demo, 1998)
  6. Precipitate (2nd Demo, 1999)
  7. Song Seven (Original Version)(2nd Demo, 1999)
  8. A Time To Be So Small (Orig Version) (2nd Demo,1999)
  9. Untitled (Third Demo, 2001) * =
  10. Stella (Third Demo, 2001) * =
  11. NYC (Third Demo, 2001) =
  12. Leif Erikson (Third Demo, 2001) * =
  13. Gavilan (Cubed) (Third Demo, 2001) †
  14. Obstacle 2 (Peel Session, 2001) =
  15. Hands Away (Peel Session, 2001) =
  16. The New (Peel Session, 2001) * =
  17. NYC (Peel Session, 2001) * =

sindicato p'rá polícia!!





durante os primeiros dias tentei andar sem a máquina fotográfica.
com tantas subidas e descidas a pé, portátil de um lado, máquina e mala do outro, chegava ao chiado toda descadeirada e a pensar que os dois minutos de percurso de carro teriam de ser inevitáveis. 
comecei a caminhar mais leve. calçado confortável, mala de perfeito ajuste às costas, música que acompanhasse as passadas, o fresco da cidade a equilibrar o calor da caminhada. 
dias perfeitos.

acontece que nesta cidade a cada esquina existem momentos como este.
e se hoje não tivesse sido mais teimosa que a lombalgia, a máquina teria ficado em casa.
bendita a horinha em que a pendurei ao ombro.
bendita a horinha em que pelas ruas do bairro e travessas estreitas os olhos se ficam por lá.
não existe um segundo que se perca por aqui.
não existem pessoas, bichos, montras ou calçadas que nos sejam indiferentes.
são muitos anos. muitas entranhas remexidas. conheço-a como a palma da minha mão.
todos os dias. diferente.


vai e vem.



Instrutivas são as existências em que a felicidade se vai e depois regressa; o homem entra constantemente em contacto com o universo. Estas reviravoltas não são raras na vida do jogador, mas podem ser igualmente observadas nos príncipes e nos soldados. Ainda assim, tais curvas num mundo, em que frequentemente apenas um passo em falso chega para causar ruína, permite imaginar a existência de uma inteligência fortemente marcada e rítmica. Do mesmo modo, sente-se nas pontas dos dedos, e, com efeito, tem-se consciência de que mãos finas e bem contornadas são frequentemente um indício de uma natureza feliz. Existe uma ciência do momento favorável; quem quiser ter uma ideia, deve utilizar o compêndio de Casanova.

- Ernst Jünger, O Coração Aventuroso


TransVerso

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

todos temos o nosso. quando quisermos. nós somos a revolução. acordar um país demora. porra para isto.



O MEU 25 DE ABRIL
Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: “então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar...” Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves.
Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa.
Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Paços, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado.
Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado).
Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Paços, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará.
Na Carlos Mardel, uma senhora num 1º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. Começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer.
E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e sossegar a mulher (?), diz que não há azar).
Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor no Diário de Lisboa ou no Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Da janela da Redacção da República, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: “estás muito bonito hoje!”, eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: “como é que se entra para aí?”, porque a porta da escada da República está fechada. “Vai pelas traseiras!”. Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última da República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover.
Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga.
Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da São. Pela TV vi depois o resto.
Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco

ter-te ali todos os dias.


Hoje de manhã saí muito cedo, 
Por ter acordado ainda mais cedo 
E não ter nada que quisesse fazer... 
Não sabia que caminho tomar 
Mas o vento soprava forte, varria para um lado, 
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas. 
Assim tem sido sempre a minha vida, e 
Assim quero que possa ser sempre 
-- Vou onde o vento me leva e não me 
Sinto pensar. 

Alberto Caeiro

domingo, 23 de setembro de 2012

quando penso numa fotografia


não entendo o porquê de coisas sempre tão iguais, que copiam tantas coisas que tantos outros já fizeram, que tantos já mastigaram e cuspiram, baralharam e voltaram a dar vezes sem conta.
quando olho para ti e sem edições de imagens, sem cores, sem sombras, sem quilos de distracções e sem poses mais que ensaiadas és tu. sempre tu. sempre sem mais nada.

a fotografia é o momento que já foi. mas que continua aqui. 
é impossível reencená-lo.
és tu.*

existem três raças de estúpidos.

o que se ri da merda que faz a si mesmo.
o que se ri da merda que os outros fazem entre si.
o que se ri da merda que faz aos outros.

em todos elas subsiste a estirpe da raça da estupidez suprema:
o que acha que os outros são mais estúpidos do que ele.