segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
é tempo
O sol é branco, as flores legítimas, o amor/ confuso. A vida é para sempre tenebrosa./ Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece/ uma rosa. No dia de verão,/ violenta, a fantasia esquece. Entre/ o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce/ sabiamente. E a bicicleta ultrapassa/ o milagre.
herberto helder
domingo, 1 de janeiro de 2012
há quem prefira malas... ou sapatos... ou serradura. e eles gostam.enchem-lhes a cabeça.
«Date a girl who reads. Date a girl who spends her money on books instead of clothes. She has problems with closet space because she has too many books. Date a girl who has a list of books she wants to read, who has had a library card since she was twelve.»
pois.
pois.
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
serendipity

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o café descafeinado. Já ninguém quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paixão. As emoções fortes são fracas e as próprias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, são igualmente namorados da monotonia e amigos íntimos da disciplina. O que está fora de controlo causa-lhes confusão, e afecta-lhes uma certa zona do cérebro, mas quase nunca lhes toca o coração. O amor devia ser sonhado e devia fazê-los voar; em vez disso é planeado, e quanto muito, fá-los pensar.
Sobre o amor não se tem controlo. É um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois dá-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais além. Deixamo-nos cair em tentação, e não nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor também se tem fé, mas não se conhecem orações: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor não é justo, não é perfeito; no amor não se declaram sentenças nem se proferem comunicados. O amor prefere ser imprevisível, cheio de riscos e de fogo cruzado. No amor os braços não se cruzam, as palavras não se gastam e os gestos servem para o demonstrar. Amar também é lutar, e enfrentar monstros fabulosos com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. É uma ilusão, um sonho, um absurdo e uma fantasia. O amor não se entende, não se interpreta, não se discerne nem se traduz. Quem ama acredita, mas não sabe bem porquê, não sabe bem o quê, nem percebe bem como.
Rogério Fernandes, Alterne Activo
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
my gods dwell in temples made with hands
morality does not help me. i am a born antinomian. i am one of those who are made for exceptions, not for laws. but while i see that there is nothing wrong in what one does, i see that there is something wrong in what one becomes. it is well to have learned that.
oscar wilde, de profundis
oscar wilde, de profundis
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
no distance to here
well, yesterday was kind of a different day, apparently cause i had no idea you would be on the other side. sooner or later the words had to be opened by that far away smile.
you said maybe it's all part of the bigger plan. that the days are going quite fast and technology is only a step behind the true nature we've all been hiding so well.
you showed me the economist and proved strongly how europe is giving her last breath and that the future is over there. wide open at your doorstep.
you waved at me the record you stole from your friends place, the songs playing over and over again on new year's eve.
i don't really know very well if it's the brooklyn heights or the vague memories of those greyish clouds over by dumbo at nightfall that reminded me of that woollen sweater.
it's closing time for now, the shops are empty and distant voices can be heard by each doorstep.
sooner than now, sooner than yesterday. the time will come.
the all time burglars keep coming to my head and the time will come.
just wait and see.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
domingo, 25 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
leiam a catarina
há como que um imperativo da estreia, entre dois seres que se amam.
«A par do desejo de alguma singularidade, na vida do outro, deseja-se estrear. Pode ser uma casa, uma cidade, um projecto. Tem é de ser alguma coisa. Não é justo que o outro já tenha dormido com alguém, antes, que tenha casado, que tenha tido um filho, que tenham ido juntos a Veneza. Justo seria que tivesse esperado por mim. No campo amoroso, a inauguração vale pontos. De cada vez que alguém diz nunca me tinham feito isso há um ego que cresce. Espera-se, no fundo, uma certa virgindade, espera-se abrir um caminho novo, estar onde nunca ninguém esteve. É aqui que o valor da estreia reside, numa falsa ideia de pureza, associada ao desconhecimento. Como se, por ser a segunda (ou a vigésima) vez, o gesto viesse gasto. Lembro-me: dizia-se que as raparigas deviam guardar-se para alguém especial. Que isso de dar o corpo, pela primeira vez, é de tal forma importante, que não podia ser com a pessoa errada. Como se houvesse aqui algum tipo de irreversibilidade. Como se, depois de o fazeres uma vez, nunca mais fosses igual. Como se, dando o corpo, desses uma oportunidade - a de alguém vir estrear-te.
Não há nada mais despótico do que isto, esta tirania da pureza, que se arrasta pela vida toda. Esta ideia infeliz de que as coisas mais importantes são as que nunca tinham sido vividas antes. É por causa disto, que se alastra como uma praga por todos os compartimentos de uma vida, que as pessoas vivem sufocadas nas suas rotinas, convencidas de que precisam de alguma novidade. É por causa disto que se ama pouco, e mal. Que se perde tempo com ciúmes do passado, do símbolo, do mito alheio - um filme muitas vezes a milhas da realidade.
Aprender a surpresa naquilo que não é novo, isso sim, é um gesto de amor. O gesto que hoje se cumpre vem de trás, foi aprendido noutros lugares, com outras pessoas, mas chega aqui outro, novo, porque enfim, na minha direcção.
reflexo
You can live in this illusion
You can choose to believe
You keep looking but you can't find the woods
While you're hiding in the trees
right where it belongs
nin
You can choose to believe
You keep looking but you can't find the woods
While you're hiding in the trees
right where it belongs
nin
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
tu

foto: marta pessanha
Se eu largar eu sinto a sua falta
Se eu agarro ela perde a côr
Ela não é dos meus dedos
É dos meus medos
E faço-me passar por uma flor
Tento imaginar o que ela diz
À espera de aprender
À face da rua existe a lua
Mas não é tua
À margem da estrada não há nada
Mas já te agrada
Tu és o teu mundo
Tu és o teu fundo
Tu és o teu poço
És o teu pior almoço
És a pulga na balança
És a mãe dessa criança
És o mal
És o bem
És o dia que não vem
Agora pára de fazer sentido
Não vês que assim estás a pisar fora da estrada
Vê se agora páras de fazer sentido
Não vês que nada nos dirá mais do que nos diz nada
Vê que o meu coração ainda salta
Quer e julga ser capaz
Não o faça por meus medos
Faça nos dedos
E eu fico para ver o que ele faz
Sem imaginar o que eu não fiz
À espera de viver
À face da chama existe a fama
Mas não te ama
À margem do nada não há estrada
Já não te agrada
Tu és o teu preço
És a tua glória
Tu és o teu medo
És a parte má da história
Vê que o sol ainda brilha
Ainda tem por onde arder
Não é mau
Não é bem
São razões para viver
Agora pára de fazer sentido
Não vês que assim estás a pisar fora da estrada
Vê se agora páras de fazer sentido
Não vês que nada nos dirá mais do que nos diz nada
Se eu largar eu vou sentir a sua falta
manel cruz
Se eu agarro ela perde a côr
Ela não é dos meus dedos
É dos meus medos
E faço-me passar por uma flor
Tento imaginar o que ela diz
À espera de aprender
À face da rua existe a lua
Mas não é tua
À margem da estrada não há nada
Mas já te agrada
Tu és o teu mundo
Tu és o teu fundo
Tu és o teu poço
És o teu pior almoço
És a pulga na balança
És a mãe dessa criança
És o mal
És o bem
És o dia que não vem
Agora pára de fazer sentido
Não vês que assim estás a pisar fora da estrada
Vê se agora páras de fazer sentido
Não vês que nada nos dirá mais do que nos diz nada
Vê que o meu coração ainda salta
Quer e julga ser capaz
Não o faça por meus medos
Faça nos dedos
E eu fico para ver o que ele faz
Sem imaginar o que eu não fiz
À espera de viver
À face da chama existe a fama
Mas não te ama
À margem do nada não há estrada
Já não te agrada
Tu és o teu preço
És a tua glória
Tu és o teu medo
És a parte má da história
Vê que o sol ainda brilha
Ainda tem por onde arder
Não é mau
Não é bem
São razões para viver
Agora pára de fazer sentido
Não vês que assim estás a pisar fora da estrada
Vê se agora páras de fazer sentido
Não vês que nada nos dirá mais do que nos diz nada
Se eu largar eu vou sentir a sua falta
Tu és tu sempre que tu és
És mesmo tu quando pensas que és outra coisa
E tu pensas que não mas tu és mesmo bom a ser sempre
Quem és
Daí o teu motivo ser inapagável
Daí o teu desejo ser incontornável
O prazer é tão maleável
Daí o seu valor ser inestimável
És mesmo tu quando pensas que és outra coisa
E tu pensas que não mas tu és mesmo bom a ser sempre
Quem és
Daí o teu motivo ser inapagável
Daí o teu desejo ser incontornável
O prazer é tão maleável
Daí o seu valor ser inestimável
manel cruz
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
ar de graça

penso muitas vezes no bairro.
em como cada despedida é feita em determinada hora, quando a saída grita tão alto e nos deixa sem forças para mais nada a não ser aquela direcção.
existe nela sempre um regresso. porque nas memórias persistem as vozes daquela gente.
da vizinha que de manhã cedo me cumprimentava. debaixo de chuva ou de sol, ali estava ela, cotovelos apoiados na janela enquanto passeava a maggie, antes do trabalho. todos os dias perguntava como eu estava. e desejava os bons dias, à antiga. «continuação, menina».
o do 22, que tinha o pitbull que tentávamos evitar.
a dona do café que me guardava as cartas e entregava os censos e assava sardinhas enquanto conversávamos.
o paulo. que todos os dias vinha com uma história nova. a sofia, que vivia no limbo da violência, do criar dos filhos e do marido preso. a do largo, que vivia no medo de chegar a casa e dos gritos até anoitecer e o homem se cansar.
a barbuda e os concertos de trash metal até de madrugada.
o supermercado indiano e o vendedor, que não consigo achar igual.
os arraiais.
o mundo que se vivia naquelas calçadas enfiava-se a trancos e barrancos em mais um desalinho da cidade.
mas o que ali se aprendeu, o que se guardou como força que nos marca sem parar, pensar ou reter no ânimo momentâneo, essa a ideia vaga de que somos imortais.
ali, por momentos, seríamos capazes de tudo. passar e sobreviver. perdidos nas ruelas mais bonitas que algum dia vi. acordava nelas. dormia na penumbra do candeeiro amarelo que tremeluzia lá fora. vi as primeiras flores daquela árvore gigante ao centro do largo.
e agora já longe, volto ao bairro. volto a sentir as pedras por baixo dos pés que não param de caminhar.
seguro-me à inconstância da vida para alinhar o eixo desta terra por onde sonho.
cada regresso a casa é amar tudo outra vez. o suspenso renasce e revive o crescer por dentro.
nada voltará a ser como dantes, e o bairro sabe disso.
o paulo mostra-me o plano de requalificação, o largo vai ter laranjeiras a perder de vista. o orgulho e o brilho nos seus olhos faz-me estremecer.
volto ao bairro e ali consigo ver-me. ainda. sobe-se a escada com dificuldade. abre-se a porta de casa com alívio ao chegar. chega-se apenas para seguir andando. padecendo da saudade tão nossa. saber que podemos voltar e sorrir aos dias passados. saber que podemos voltar e seguir e todos estarão no lugar onde os deixámos. o pitbull. a vizinha de manhã. o paulo. a sofia. as cartas no café. até as ameaças disfarçadas de cuidados. até a marcha da mouraria que saiu em cortejo e escolta animada. tudo estará por ali outra vez.
nós é que não.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
a alegria de quem as vê passar e desaparecer
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